No último dia do ano de 2020 apanhei lírios selvagens no lusco-fusco da madrugada sob a luz da lua cheia, num lugar campestre, onde se ouvem badalos ao movimento das vacas que pastem, entalado entre acessos a uma autoestrada e um parque fotovoltaico que ofusca de brilhos sob o sol.

Os lírios continuam viçosos e a aromatizar o ambiente, sente-se o aroma mais do que se sente o cheiro da lenha a arder que começa cedo porque o Inverno entrou no rigor das noites geladas e dos dias frios.


Passei a tarde do último dia do ano a pintar mas acabei por raspar a tinta toda que é o que faço quando me desgosta o rumo do pincel.

No primeiro dia do ano voltaria àquela tela. E voltei.

Nestes dias fiz dois trabalhos que são de dimensões razoáveis para integrar uma próxima exposição: o da tela a que voltei e está no final deste post e um outro, recuperação de uma tela que já havido sido exposta e não tinha futuro nenhum, que foi uma segunda tentativa - frustrada - de pintar uma mulher desenhada sem óculos num A3 com esferográfica; saiu-me, de novo, um homem; a primeira tentativa, que já tem casa e só aguarda a secagem para seguir viagem, já me tinha saído um homem; irei tentar outra vez decerto, sou teimosa.

Pintei ainda um ceramista muito geométrico e ao meu gosto e mais duas ou três coisas que provavelmente vão ser alvo de alterações, estas últimas telas mais pequenas e de maior comodidade para pintar em qualquer altura.

Esta é a minha primeira de 2021.





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  • Nélia Duarte

Ultimamente tenho tido algumas dificuldades com o serviço de internet. O que não é mau. Ainda assim tenho tido alguns momentos de distração. No outro dia alguém quase enlouquecia de incompreendida irritação perante o apreço de tantos à obra “a mad woman” de Soutine, e suplicava por algum esclarecimento da parte dos que gostavam daquela coisa mal pintada e indigna de figurar numa página que se intitula Grand Artist. No meio de respostas durinhas e pouco simpáticas, parece que o 'alguém' ostentava no perfil relação próxima com as artes, uma pessoa disse simplesmente ‘it's very expressive’. E é por isso, talvez, que o que eu sinto é que a ‘mad woman’ é comovente.

Nestes dias tenho pintado mais do que vinha sendo hábito. Tenho algum tempo, o que ajuda bastante, mas também tinha saudades das tintas. Apesar disso, na primeira tinta que raspei com a espátula para voltar ao início, se tivesse como carregar em CTRL+ALT+Z (no teclado a conjugação de teclas que permite voltar atrás em muitos programas de desenho) tê-lo-ia feito. Não sendo possível somei uma figura a outra e acabei por concluir assim o trabalho. Borges tinha o tigre, eu tenho as vacas. Pintei mais duas telas onde há vacas e um ou dois toritos. Acabei o dia com um ceramista porque tem as cores da cerâmica. Gosto do ceramista, o que já não é mau.




#artblog #óleo

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  • Nélia Duarte

O que começou por ser um bom auspicio acabou por resultar num fracasso. Acontece.

Fiquei sem rumo quando me surgiu a ideia de usar efeitos sonoros e, desde logo, o de uma chapada - porque a personagem que levanta a mão não tem na expressão o afago mas o bafio empertigado do respeitinho!; e foi a partir da segunda janela que fui fazendo a escolha de desenhos e dando-lhes o movimento quando tudo já me levava para outro tempo apesar de ter começado no presente com o desenho a que dei nome de 'isolamento visual', publicado na galeria de desenhos_2020, uma metáfora visual aos tempos de pandemia. A meio do trabalho fiquei sem conseguir reverter para a barra de frames e para a possibilidade de alterar e/ou aceder às imagens. Entre desistir e apagar tudo ou tentar sonorizar o que tinha, optei por seguir.

Foi no caos de ajustes de efeitos sonoros que me lembrei do software [opensource] audacity que já tinha usado há anos; instalado, o trabalho no som foi mais fácil e posso ter encurtado passos para a produção própria de efeitos sonoros e de narração, ou dito de outro modo: o futuro é já ali.

Apesar de um tanto críptica, a animação é suficientemente curta para não deixar ninguém desconfortável e pode ser entendida como uma alegoria do que fomos e do que ainda somos apesar das janelas que fecham ou que fechamos.

[imagem do ambiente de trabalho - se clicar na img poderá ver o vídeo]


#2D

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NÉLIA

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