O que mais gosto no pastel (no caso é de óleo), e no desenho de um modo geral, é que ao contrário da tinta se pode usar de uma forma muito minimalista. O essencial. Aqui e aqui.

Hoje comecei o dia a fazer estudos e a sujar os dedos de pastel, mas acabei por deixar e ir sondar a caixa de fotografias organizada pela minha mãe e que tem retratos minúsculos de gente que eu nunca vi, não sei quem são e nem ela já sabe. Parece que era hábito oferendas de retratos. Mas também lá estão muitas outras fotografias (todas minúsculas) do dia a dia de pessoas em diferentes afazeres, algumas dessas tiradas pela minha mãe. O meu avô era um homem muito bonito, e na fotografia que dele tenho, naquele p&b de estúdio fotográfico, é possível observarmos os olhos de um azul muito claro que na foto é impresso em branco, com um contorno mais escuro e uma pupila que se destaca a negro, ligeiramente dilatada. Ao meu avô chamavam a alcunha de Gaio por causa dos olhos. Não conheci o meu avô e não me lembro de ter observado antes com tanta atenção os seus olhos fotografados, mas o que é certo é que já desenhei (e pintei) olhos com íris de luz e pupilas de profunda sombra. Portanto, sem que tenha disso consciência, o meu avô está lá.









Picasso dizia que cada pincelada é um trabalho de precisão. E apesar da sua brilhante habilidade não deixou de lutar durante décadas para renovar constantemente essa precisão.


Há mais ou menos oito anos quando comprei pastel de óleo, que eu nunca usara, lembro-me de ter visto, com consecutivos avanços no play, uma meia dúzia de vídeos no youtube. Aborreci-me rapidamente dos vídeos e virei-me para a experimentação. E embora não tenha progredido muito com o pastel, uso-o de vez em quando para desenhar; gosto particularmente dos resultados de cor.


Quando comecei a usar o pincel e óleo simplesmente comecei. As pesquisas que fiz foram sobretudo em publicações escritas sobre o comportamento da tinta e aditivos. Fui percebendo conforme fui pintando, mudando de pincéis, mais suaves, mais ásperos, mais largos, tinta mais diluída, mais espessa, espátula, etc..


Nestes anos de trabalho experimental (e esporádico) fiz uma progressão que julgo expectável dada a minha natural curiosidade e persistência. A figuração humana sempre foi o meu impulso e sobre isso não há (pelo menos por agora) nada a dizer.


Após sete anos de tintas penso que a prática que tenho feito em torno das formas e do desenho tem sido sempre muito espontânea e feliz, já a que tenho feito na utilização da luz tem sido mais sofrida [como explicado aqui].

Se no desenho continuo em bruto, na tridimensionalidade ainda mais. Mas penso que posso assumir com naturalidade que a expressão das minhas personagens se faz bem através das formas e do desenho. O resultado do meu último trabalho confirma-o. Agradavelmente.


"Disseram-me um dia Rita põe-te em guarda |aviso-te, a vida é dura põe-te em guarda |cerra os dois punhos e andou põe-te em guarda |eu disse adeus à desdita |e lancei mãos à aventura |e ainda aqui está quem falou"

[Balada da Rita, Sérgio Godinho]


  • Nélia Duarte

São muitas as vezes que pinto em telas que já estão pintadas. Por variadíssimas razões, muitas vezes porque não gosto ou deixei de gostar do que pintei, porque quero muito pintar e não tenho telas com tinta e preciso disso porque se já tiverem tinta eu tenho mais liberdade para pincelar largo, desastrada e rapidamente, também porque gosto da possibilidade de camada de tinta de tom contrastante da tinta já seca, e porque muitas vezes é no que já lá está que eu me defino no que vou realizar, pode ser um pormenor insignificante como ponto de partida ou mesmo um espaço de cor, enfim reciclo muito. Borges dizia que os seus contos ou poemas começavam por uma espécie de revelação, que de repente sabia que ia acontecer algo e isso que ia acontecer podia ser, no caso de um conto, o princípio e o fim. As minhas revelações, o que eu sei que vai acontecer, é sempre o princípio. Já não é mau de todo.

Ontem pintei numa tela que havia pintado pela primeira vez em 2016, repintado em 2019 e 2020.

Entre a primeira e a última há a concordância de alguma delicadeza de pincel fino e macio.

Da primeira para a segunda obtive o que pretendia, que era um novo trabalho por não gostar do primeiro a que, premonitoriamente, dei o nome de contrariedade. Contúdo, com o passar do tempo, o vermelho da primeira pintura saía sempre na zona clara da segunda após algum tempo. Repintei e experimentei a espátula a raspar, a tinta de baixo deixou de se fazer notar mas o resultado de tanta camada de tinta ou simplesmente porque sim, tornou-se, para mim, insuportável. Já aguardava há algum tempo na zona das telas a reciclar. Daí que ontem tenha servido de suporte a novo trabalho.

Nem sempre é possível refazer a história das minhas telas repintadas, esta foi porque encontrei fotos em backup. Aqui fica.




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