Não tenho desenhado. Nada. Nem um traço, nem uma linha. Zero. 

Às voltas com livros, depois de ter lido o 'todos os nomes' do Saramago que tinha cá em casa há dezoito anos (datar os livros revela-se, por vezes, importante) tranquilamente ignorado, a tentar encontrar outro que cá tenha na mesma condição, pego no livro 'Almas mortas' - título magistral cujo tema foi proposto por Puskine a Gogol -  de Nicolau Gogol; viro páginas, leio aqui e ali, e fico sem certezas de já ter lido o livro, um livro que comprei em escudos, 500, conforme escrito a lápis no destacável «talão de reposição a devolver ao editor» da Editorial Estampa. 

Segue-se o primeiro parágrafo:


'Abriu-se de par em par a porta-cocheira duma hospedaria da cidade de N., capital da província, e deu passagem a uma pequena brisca de molas, uma dessas carruagens de quatro rodas e dois assentos em que geralmente viajam os celibatários, tenentes-coronéis ou majores reformados, proprietários de uma centena de almas, em resumo, todas as pessoas da chamada classe média (…)'



Lendo, o que me ocorre:


- O que farei eu depois de se me acabarem os livros que foram escritos e publicados antes do AO ou como diz o meu amigo Mesquita, antes da Reforma Ortográfica de 1990-2008?

- Já tive uma professora de português que me corrigiu (assumindo como erros) por utilizar vírgula antes da conjunção e apesar de usada correctamente.

- Li duas vezes o ' jogador' do Dostoiévski, de duas edições e traduções diferentes; a da Editorial Presença fiz desenho da capa do livro porque tive que o devolver à biblioteca. A ideia era comparar traduções mas depois de algumas páginas passou-me a ideia, entreguei-me à leitura como se o estivesse a ler pela primeira vez.

- vou fazer um desenho com almas mortas e gogol agora mesmo; e cá está!

Gogol; almas mortas

  • Nélia Duarte

Utilizando pastel seco e papel reciclado de embrulho fiz retratos, retratos, retratos... rápidos, cada vez mais rápidos; fiz com todos eles um rolo verdadeiramente volumoso, mas fácil de armazenar. [alguns estão na galeria rabiscos 2020]

Acabei por parar com os desenhos para passar ao óleo. E durante uma manhã fiz na tela, usando o pincel em movimentos rápidos, o que estava a fazer no papel reciclado com o giz de pastel: desenho; retrato, raspar tinta, outro retrato, raspar tinta, outro... até que parei! E comecei a abrandar e a colocar a tinta espalmando o pincel, que é a forma de 'desenhar' de dentro para fora. 


Quando a personagem começa a assomar na camada de tinta eu dedico-lhe todo o meu enlevo e o tempo deixa de existir.


Foi assim que me surgiu Consuela Castillo, a jovem estudante que faz da vida do velho libertino professor Kepesh um pântano, em "dying animal" do Philip Roth, onde se pode ler:

"A única obsessão que toda a gente quer: 'amor'. As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fratura-nos. Estás inteiro e depois estás fraturado, aberto. | "The only obsession everyone wants: 'love.' People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you're whole before you begin. And the love fractures you. You're whole, and then you're cracked open."

Depois, com o mesmo processo, cheguei a Maria das Mercês e ao seu olhar a Domingos, o criado mestiço que perdeu um braço e que "gastara a infância nos cais do Mindelo conduzindo marinheiros americanos com a sua voz branda e amável". Maria das Mercês, a esposa do engenheiro Tomás da Palma Bravo, que morre afogada na lagoa, agarrada pelos pés ao lodo do fundo, em 'O delfim' de José Cardoso Pires.



Ela pergunta-me «e natureza?» e eu devolvo, com alguma aspereza (mais para me conter do que pelo assunto em si), que a natureza não me motiva. Mas depois, e apesar de não querer desenvolver, contradigo a intenção acrescentando: a natureza é monótona. E pronto, não se diz uma coisa destas sem desenvolver argumento, até porque ela retorquiu, e bem, de imediato que só de flores temos milhentas variedades. 


A natureza é. Essas milhentas variedades e todas as outras que vierem a ser. A natureza está ali à vista de todos para ser observada, fotografada, dia após dia - a nascer, a crescer e a morrer; o sol a aparecer e a se pôr, dia após dia. A natureza é!


Oscar Wilde afirmava (livro Intenções, quatro ensaios sobre a estética) que "a Arte é, na verdade, uma forma de exagero; e a selecção, na qual reside o espírito próprio da arte, não é mais do que um modo mais intenso de multiplicar ênfase".


Não sei se a minha inclinação pela figura humana deriva muito disto, mas eu penso que a pessoa sendo disfarça-se, e é no que é, que eu não vejo, que procuro e acrescento; o meu aliciamento é esse, suponho; as personagens.



desenhos, aprendizagem, corpo humano, nu

© Nélia Duarte  

Lagos, Algarve

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