• Nélia Duarte

Os meus últimos trabalhos voltaram a construir-se no retrato. E há um que me prende de cada vez que o observo. Porque gosto do resultado e sei que o comecei e acabei quase sem levantar o pincel. Há trabalhos assim, que não nos levantam qualquer dúvida no decorrer e, muito importante, sabemos que estão completos quando se levanta o pincel. Também quando, passados dias e já superficialmente seco, não lhe pressentimos qualquer incómodo. Perguntava-me a psicóloga na entrevista:

- e daqui a cinco anos? o que se vê a fazer daqui a cinco anos?

E eu, sem qualquer dúvida, a responder-lhe: - a pintar. Seguramente a pintar! É só isso que eu sou capaz de me pensar a fazer daqui a cinco anos. E cinco anos é tanto tempo que nem me atreveria a ver-me se não me pedisse que o fizesse. E cá estou eu.





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  • Nélia Duarte

Uma entrada muito bonita. Grata a todos os que trabalharam para que assim fosse.


O Centro Cultural de Lagos, junto ao pátio, é um espaço muito aprazível, tranquilo, onde se está bem. Esta foi a minha primeira impressão de um dia que foi, inteiramente, lá passado. Aconteceu ainda que tive a sorte de ter banda sonora de piano a duas mãos, durante ensaios para o espectáculo da noite no auditório. Para além de alguns contactos que estabeleci com desconhecidos, especialmente durante a manhã, foi muito agradável estar e conversar com os que, conhecendo, não via há imenso tempo. Conversa boa, risos fáceis, momentos felizes. Como se deseja e quer.

Talvez seja prematuro dizer que estou num processo de simplificação, tanto ao nível do traço como da composição cromática, mas reunido trabalho até 2022, e observando-o conjuntamente com a tela (que é a que está na foto) já de 2022 e outras posteriores, é o que me ocorre. E julgo que o que mais contribuiu para chegar aqui foi a insistência que fiz através do desenho. Estou animada de forte desejo (e até alguma urgência) de continuar processos e aprendizagens. Entre uma coisa e outra, se há tempo e posso pinto que é, afinal de contas, o que eu mais gosto de fazer. Últimos trabalhos, processos simplificados, traço e composição cromática. aqui | aqui | aqui

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  • Nélia Duarte

A exposição «Entre paredes» reúne uma seleção de trabalho realizado entre 2020 e 2022, com exceção da pintura "sapatos amarelos" (2018). Pintado prematuramente, "sapatos amarelos" sugere uma narrativa de desconforto e expectativa que viria a ser vivida por muitos de nós nos últimos dois anos durante o confinamento social prolongado.

Opressivamente as paredes cercam e parecem mesmo abater-se sobre a figura feminina sentada que, ligeiramente curvada, deixa transparecer uma expressão de desânimo, ainda que a sua apresentação cuidada, glamorosa, nos possa sugerir que está preparada para uma saída desejada. A esperança que nela pressentimos é a que não deixámos, nem queremos deixar, de sentir. Entre paredes é um espaço privilegiado para a intimidade, um espaço preenchido de afetos, vivido de emoções, angústias e, também, da manifestação das nossas agressões.


Neste espaço, nestas paredes, estão algumas das muitas representações expressivas, ou narrativas de vida, que eu fui registando ao longo destes últimos dois anos como as pensei e senti. Esta é uma manifestação da minha existência; aqui e agora a comunicar convosco.

Obrigada,

Nélia Duarte






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