• Nélia Duarte

"A arte sempre foi isto - interrogação pura, questão retórica sem a retórica(...)"

Hoje vou descrever um encontro relatado por João dos Santos entre ele mesmo, na sua despedida do Júlio de Matos, e um menino desconhecido (para ele). Depois de um jogo físico inicial de palmadas e palmas o miúdo acabou por dizer ao João que ele era um velho, um velho que não prestava e que ia fazer o seu retrato em bebé com a mãe a mudar-lhe as fraldas. E começou o desenho, explicando: (...)«olha, eu faço-te de saias porque tu dantes tinhas saias e eras maricas… vou-te pôr um pescoço muito grande… um pescoço assim como uma girafa, mas vou-te pôr saias, porque tu dantes eras maricas.» (...)" E depois desenhou ainda a que seria a mãe do João dos Santos que ele disse ser zarolha porque não via bem. E João dos Santos que nada sabe sobre aquele menino e a sua família, sabe, contudo, que quando ele lhe diz «és um velho e não prestas, e vou fazer o teu retrato, um bebé de fraldas» lhe está a transmitir que ele é um tipo porreiro que aceitou a sua agressividade e sabe ser pequenino como ele. Também que gosta dele, mas não o pode dizer na frente da mãe que ali está a ouvir e a observar atenta, daí ela ser zarolha e ver mal, mas também que o João é um homem grandioso, um adulto com quem se pode conversar, com quem se pode falar e brincar, e por isso lhe faz um pescoço grande, de girafa. E ser maricas é porque ele ainda não sabe bem a que sexo pertence, ou o que é ser homem e o que é ser mulher. O título do post é o fecho do anterior - autoria: Samuel Beckett


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