• Nélia Duarte

Quando as palavras não bastam ou não se encontram haverá sempre um abraço e um coração a bater no outro. Lembro-me com alguma frequência de ter visto publicada a foto de uma bela escultura da artista RoMP (Rita Pereira [em homenagem a Matthias Sandeck, jovem atleta algarvio falecido em competição de pesca submarina em 2019] e de a ter lido em palavras poéticas e bonitas sobre a sua escultura. Comentei, o que seria de nós sem a poesia, e fi-lo numa aproximação ao que ela mesma sentia. Porque, e apesar do belo que se produza, subsiste a necessidade de chegar mais além, de tocar os intocáveis; e mesmo sem os tocar a certeza de que a poesia é o máximo que podemos para perceberem, ao menos, o quanto gostamos daquilo que fazemos. Ouço incansavelmente, porque eu sou de insistir até à exaustão, 'all things beautiful' do Nick Cave & Warren Ellis (e tanto melhor e mais bonito que os meus ouvidos já ouviram) desenho figuras que gritam e também outras, porque há gritos que eu ouço, sem ouvir. Sinto-os. Nos ouvidos, na cabeça, no corpo. A vida é injusta para qualquer mãe que perca um filho e eu só queria aliviar tanta dor e nem a que me cabe - por partilha de um coração a bater no outro - eu consigo, por mais desenhos que faça e por mais que ouça "all things beautiful". Nem poesia.





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  • Nélia Duarte

O formato e a dimensão do suporte têm a sua importância na mecânica da pintura. Regra geral, e do que tenho observado, no formato retangular, escolhem-se dimensões de largura e altura que se aproximam do quadrado. São áreas versáteis para composições e estilos variados. Tinha em casa, há mais de quatro anos, uma tela de dimensões pouco usadas: a altura a duplicar a largura. Não sei já porque comprei esta tela, se tive alguma intenção na escolha, mas acabei por finalmente a usar aplicando-lhe tinta acrílica numa execução rápida como eu gosto; tinta directamente na tela e espátula que me levou a uma figura que se apresenta em dramatismo e pose de palco, cores que se impõem: vermelhos, pretos e brancos.

Gostei tanto do formato que me permite amplitude que acabei por comprar outra tela com as mesmas dimensões. Repeti o método, tinta, espátula e, de repente, tinha-o ali a olhar fugazmente para a figura anterior: Luiz Pacheco [documentário - mais um dia de noite]. 2022, 60x120cm, tinta acrílica

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  • Nélia Duarte

Não há muito tempo vi pela primeira vez, numa rede social, uma sequência de litografias da autoria de Pablo Picasso que são uma verdadeira lição de desenho; de como simplificar à redução bela de linhas e à abstração. Observando, senti tudo aquilo como uma epifania. Era aquela a via mais rápida para um resultado satisfatório. Tinha, numa parede cá em casa, uma tela pintada a óleo há mais de quatro anos; uma tela que tinha um nome bonito "avolumam-se de palavreado", que já me havia valido um início de conversa num auditório cheio de alunos do 2º ciclo, onde eu lhes falei, entre outras coisas, das formas e da sugestão que as mesmas nos podem dar para concretizar um desenho, naquele caso o que me havia sugestionado fez rir a audiência porque ouviram de mim a palavra: rabo. Para além das formas (e volumes), cores quentes intensas, nada mais tinha que ainda me fizesse parar para a observar e, também por isso mesmo, na parede de passagem. Ali esteve até ontem. Terá a monocromia de uma litografia. Terá a simplificação do traço. Espero. Ouço Shane MacGowan (Viva!) em "summer in sian".

"When it's summer in Siam

And the moon is full of rainbows

When it's summer in Siam

Then we go through many changes

When it's summer in Siam

Then all I really know is that I truly am"








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