Hoje vou descrever um encontro relatado por João dos Santos entre ele mesmo, na sua despedida do Júlio de Matos, e um menino desconhecido (para ele). Depois de um jogo físico inicial de palmadas e palmas o miúdo acabou por dizer ao João que ele era um velho, um velho que não prestava e que ia fazer o seu retrato em bebé com a mãe a mudar-lhe as fraldas. E começou o desenho, explicando: (...)«olha, eu faço-te de saias porque tu dantes tinhas saias e eras maricas… vou-te pôr um pescoço muito grande… um pescoço assim como uma girafa, mas vou-te pôr saias, porque tu dantes eras maricas.» (...)" E depois desenhou ainda a que seria a mãe do João dos Santos que ele disse ser zarolha porque não via bem. E João dos Santos que nada sabe sobre aquele menino e a sua família, sabe, contudo, que quando ele lhe diz «és um velho e não prestas, e vou fazer o teu retrato, um bebé de fraldas» lhe está a transmitir que ele é um tipo porreiro que aceitou a sua agressividade e sabe ser pequenino como ele. Também que gosta dele, mas não o pode dizer na frente da mãe que ali está a ouvir e a observar atenta, daí ela ser zarolha e ver mal, mas também que o João é um homem grandioso, um adulto com quem se pode conversar, com quem se pode falar e brincar, e por isso lhe faz um pescoço grande, de girafa. E ser maricas é porque ele ainda não sabe bem a que sexo pertence, ou o que é ser homem e o que é ser mulher. O título do post é o fecho do anterior - autoria: Samuel Beckett




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  • Nélia Duarte

Desenhos rápidos com esferográfica e aplicar-lhes cor, principalmente pastel de óleo, tem sido o meu ímpeto dos últimos dias. Tenho obtido resultados que me agradam muito.

Nesta minha série de desenhos tenho trabalhado, em muitos deles, com suporte visual de fotografia; contudo, ao contrário do que é hábito fazer-se, eu procuro sempre afastar-me da fotografia. Não estou minimamente interessada em sair-me bem na 'cópia' do modelo, simplesmente uso a foto como referência. Neste, que foi o último e um dos que mais gosto, recorri a uma foto de um dos meus rostos preferidos: Samuel Beckett. Beckett que terá afirmado: "A arte sempre foi isto - interrogação pura, questão retórica sem a retórica - embora se diga que aparece pela realidade social." - afirmação que pode ser tema para o próximo post pela importância que tem para mim.




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  • Nélia Duarte

Valorizar porque não o ignoro, também porque, podendo, não o descarto ou não me liberto dele e, pelo contrário, decido-me a valorizá-lo no sentido da transformação. O erro como ponto de partida para a experimentação e criação. [ Isto se previamente considerarmos que no desenho há erro, ou seja uma transgressão às normas, às regras] Durante muito tempo quando desenhava fazia-o digitalmente (é comodo)e usava a borracha digital sempre que me parecia necessário corrigir um traço. Quando passei a desenhar no papel e a usar tinta a "borracha" passou a ser todo o tipo de meio a que tenho acesso, desde aguarela, acrílica, marcador e, ultimamente, pastel. Posso concluir que o pastel, até agora e para mim, é o melhor meio de valorizar o erro.



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