• Nélia Duarte

registos (vivos)

Li hoje que Braque (Georges) afirmava que o quadro está pronto quando apaga a ideia que o motivou. Julgo que esta é também a minha verdade. Resulta da continuidade da ideia o trabalho que habitualmente faço e a sofreguidão por acabá-lo. 


Continuei na série das cidades invisíveis; e embora a meio do trabalho tenha tido uma hesitação quase interrompendo o processo porque subitamente vi duas figuras ébrias abraçadas numa coisa que era para ser duas palmeiras erectas a tocarem-se nos penachos da ponta, afastei essa imagem da cabeça eliminando (sobrepondo tinta) as palmeiras. Não porque fosse imperioso ver surgir Armilla, mas porque essa ideia continuava viva e, como antes referi, precisava extingui-la acabando o quadro. Se mais tarde, daqui a meses, Armilla me sugerir algo novo, diferente, sacrifico-a sem hesitações. É assim que vivo o acto de pintar.  (abaixo imagem registada em foto do trabalho em fase inicial, foto com desenho digital agora feito apressadamente e foto do trabalho final)

"Se Armilla é assim por estar incompleta ou por ter sido demolida, se por detrás dela está um encantamento ou só um capricho, eu ignoro-o. O facto é que não tem muros, nem telhados, nem chão: não tem nada que a faça parecer uma cidade, excepto as canalizações da água, que sobem na vertical onde deveriam existir as casas e se ramificam onde deveriam ser os andares, uma floresta de canos que terminam em torneiras, duches, sifões, válvulas. (…)" Italo Calvino em Cidades Invisíveis

27, dez, 2018


montagem com 3 fotos, última a tela final na galeria "tinta fresca"

© Nélia Duarte  

Lagos, Algarve

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