• Nélia Duarte

O Jovem Torless, de Robert Musil

"É sempre assim: aquilo que num momento experimentamos como indivisível e inquestionado torna-se incompreensível e confuso, quando queremos amarrá-lo com as cadeias do pensamento, tomando posse de si. E aquilo que parece grande e estranho enquanto as nossas palavras, de longe, anseiam por isso, torna-se simples e perde o que tem de inquietante mal entra no ritmo da nossa vida diária"


A propósito deste livro escrevi em 2004:

Porque somos (?) tão insolentes na certeza de que mais ninguém viveu a angústia da ambiguidade como nós a vivemos? Será porque sobrevivemos? Foi isto que me ocorreu ao ler este romance de Musil. E se me foi possível pensar isto sem estabelecer analogias de época, cultura, meio, ou, até, de algo tão vital como o despertar e a vivência da sexualidade, mais fácil me seria reconhecer a imbecilidade de me arrogar casual entre distintos mais contíguos. Ou não?... Teimo ridicularizando-me e retiro, testemunhal, da memória as palavras de quem me deu este livro. Mas como poderia ele, tão afastado do tear que me teceu e, de resto, da continuidade incessante do cruza e descruza do fio que continua a tecer-me, ter pressentido ou sabido? Talvez a solução deste aparente enigma seja, sempre foi e continuará a ser, a evidência implacável que fica registada como um estigma na textura: a solidão. A solidão com tudo o que de prodigioso e intenso ela encerra, como a capacidade de sentir 'esse silêncio repentino, como uma linguagem inaudível' (como escreve Musil num contexto de abandono) e a necessidade de imaginar as mais emaranhadas combinações e diferentes possibilidades dessa mesma linguagem.

Musil confina-nos ao colégio militar onde o jovem Törless é interno, e deixa-nos ali, suspensos, encostados à janela aberta, estremecendo a cada reviravolta, interrogação e insatisfação do jovem, na busca do equilíbrio entre o emocional e o racional.


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© Nélia Duarte  

Lagos, Algarve

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