• Nélia Duarte

É ela, é ela, sim.


- Era um choro cantado, ininterrupto, ouviu-o da meia-noite até às quatro da madrugada, não sei se ela aí, nessa hora, parou, ou se fui eu a adormecer; embalado.

- Era um choro cantado, singular, uma dor de dentro, permanente, um peso intenso, denso, rumoroso, uma dor inalterável e ritmada, chorada, num choro cantado. Vieram pessoas, uma e depois outra e outra, a porta abriu-se e fechou-se, ouviram-se vozes em sussurro, alvitres, pesares, passos, a noite em gemidos de luzes e ecos, e aquele canto de luto chorado, indiferente à noite e aos rumores, sem se alterar por um só instante.

- Morreu-lhe o marido.


[ Um friozinho a arrepiar, o consolo e o pesar por ser ali ao lado; ainda assim, ali ao lado, é muito perto; sente-se no debrum rematado das telhas, no espaço entre a porta e a soleira. A curiosidade e a perturbação, o anseio de saber e partilhar, um receio a ocultar; a janela que não se abriu, o riso da miúda que hoje não se ouviu, o choro cantado silenciado e uma porta a ranger nos batentes; passos indistintos no rumo. O sol encoberto por nuvens espessas garante algum alívio no caminhar lento do velório; que sairá. ]


- Morreu-lhe o marido na sala de operações.

Óleo " É ela, é ela, sim" na galeria "pode ser seu"

(texto escrito em 2007)




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© Nélia Duarte  

Lagos, Algarve

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