• Nélia Duarte

é dos livros


Utilizando pastel seco e papel reciclado de embrulho fiz retratos, retratos, retratos... rápidos, cada vez mais rápidos; fiz com todos eles um rolo verdadeiramente volumoso, mas fácil de armazenar. [alguns estão na galeria rabiscos 2020]

Acabei por parar com os desenhos para passar ao óleo. E durante uma manhã fiz na tela, usando o pincel em movimentos rápidos, o que estava a fazer no papel reciclado com o giz de pastel: desenho; retrato, raspar tinta, outro retrato, raspar tinta, outro... até que parei! E comecei a abrandar e a colocar a tinta espalmando o pincel, que é a forma de 'desenhar' de dentro para fora. 


Quando a personagem começa a assomar na camada de tinta eu dedico-lhe todo o meu enlevo e o tempo deixa de existir.


Foi assim que me surgiu Consuela Castillo, a jovem estudante que faz da vida do velho libertino professor Kepesh um pântano, em "dying animal" do Philip Roth, onde se pode ler:

"A única obsessão que toda a gente quer: 'amor'. As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fratura-nos. Estás inteiro e depois estás fraturado, aberto. | "The only obsession everyone wants: 'love.' People think that in falling in love they make themselves whole? The Platonic union of souls? I think otherwise. I think you're whole before you begin. And the love fractures you. You're whole, and then you're cracked open."

Depois, com o mesmo processo, cheguei a Maria das Mercês e ao seu olhar a Domingos, o criado mestiço que perdeu um braço e que "gastara a infância nos cais do Mindelo conduzindo marinheiros americanos com a sua voz branda e amável". Maria das Mercês, a esposa do engenheiro Tomás da Palma Bravo, que morre afogada na lagoa, agarrada pelos pés ao lodo do fundo, em 'O delfim' de José Cardoso Pires.



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© Nélia Duarte  

Lagos, Algarve

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